Uma equipe internacional de cientistas liderada pelo professor da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da PUCRS, Eduardo Eizirik, descobriu uma nova espécie de felino selvagem que vive nas florestas montanhosas da Bolívia, região conhecida como Yungas. Batizado de Leopardus tilcayo, o animal é a primeira nova espécie de felino atual, ou seja, não fóssil, descrita formalmente pela ciência em mais de 100 anos.
No mesmo estudo, os pesquisadores identificaram ainda uma nova subespécie de felino que vive nas Yungas do Peru, denominada Leopardus tigrinus antisuyo. Para a surpresa dos cientistas, os dois novos felinos não são os parentes mais próximos um do outro, mas sim duas partes diferentes de uma complexa árvore genealógica de gatos selvagens sul-americanos.
Publicado na revista científica Current Biology, o estudo também apresenta mudança importante na compreensão da diversidade de um grupo de gatos-do-mato, conhecidos em inglês como “tiger cats”. Considerado até recentemente como uma única espécie, esse grupo de felinos selvagens sul-americanos é formado, na realidade, por cinco espécies diferentes, sendo que uma delas é formada por duas subespécies distintas.
O coordenador do estudo explica que esses gatos-do-mato podem ser considerados o que a ciência chama de espécie críptica. “São animais que apresentam aparência muito semelhante, mas são geneticamente diferentes e seguem histórias evolutivas independentes há centenas de milhares ou até milhões de anos. Essa semelhança visual fez com que diferentes espécies fossem, durante muito tempo, confundidas e classificadas como uma só”, afirmou Eizirik.
A descoberta foi possível a partir do sequenciamento e análise de genomas completos de 38 indivíduos de diferentes regiões da América do Sul. Entre os materiais estudados estão oito exemplares históricos preservados em museus da Europa e dos Estados Unidos.
O uso de material de coleções científicas foi fundamental para reconstruir a história evolutiva desses animais, inclusive no Escudo das Guianas, onde a espécie Leopardus tigrinus foi originalmente descrita e onde o estudo obteve os primeiros dados genéticos da população-tipo.
Da floresta ao museu
Para desvendar essa história, os pesquisadores combinaram o sequenciamento de genomas de animais atuais com o estudo de exemplares preservados em museus, em uma abordagem científica conhecida como “museômica”. A estratégia permitiu obter informações genéticas de populações que atualmente são pouco observadas na natureza e que possuem poucos exemplares disponíveis em coleções científicas.
O resultado ajudou a esclarecer um antigo problema da classificação desses felinos. Apesar de este grupo de gatos-do-mato ter sido descrito originalmente no século XVIII a partir de animais do Escudo das Guianas, hoje eles raramente são avistados naquela região. A análise dos genomas mostrou que a semelhança entre os animais não significa que eles tenham uma história evolutiva recente em comum. Ao contrário: as diferentes espécies seguiram caminhos independentes ao longo do tempo.
A nova espécie encontrada nas Yungas bolivianas recebeu o nome de Leopardus tilcayo em homenagem à denominação utilizada pelas comunidades locais para se referir ao felino. Já a nova subespécie identificada nas Yungas peruanas foi chamada Leopardus tigrinus antisuyo. O termo “antisuyo” faz referência a uma região do antigo Império Inca que abrangia a área onde o animal vive.
“Tigrino”: o gato que permitiu descobrir a espécie Leopardus tilcayo
A história do Leopardus tilcayo começou com um animal conhecido pelo apelido de “Tigrino”, pois acreditava-se que fosse um exemplar de Leopardus tigrinus. O macho foi encontrado quando filhote por um morador local em 2016, na região de Nor Yungas, na Bolívia, e levado para o refúgio de animais La Senda Verde.
A análise genética realizada pelos pesquisadores, porém, revelou que aquele felino não pertencia à espécie que se imaginava. Ele representava, na verdade, uma linhagem evolutivamente distinta e até então não reconhecida pela ciência. O animal, que por um tempo foi conhecido simplesmente como “Tigrino”, acabou se tornando o holótipo de Leopardus tilcayo, o exemplar que representa oficialmente a espécie em sua descrição científica.
Descoberta muda estratégias de conservação
Além de ampliar o conhecimento sobre a evolução dos felinos sul-americanos, a descoberta tem consequências diretas para a conservação dessas espécies. Os animais enfrentam ameaças como perda e fragmentação de habitat, caça e doenças transmitidas por animais domésticos. Algumas das populações vivem em ambientes particularmente vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas.
As análises genômicas indicam que algumas dessas espécies apresentam baixa diversidade genética, característica que pode limitar sua capacidade de adaptação a mudanças ambientais rápidas. Com a identificação de cinco espécies distintas, os pesquisadores apontam que as estratégias de conservação também precisam considerar cada grupo separadamente.
O que antes era tratado como uma espécie amplamente distribuída passa a ser entendido como um conjunto de espécies com distribuição geográfica, características e necessidades de conservação próprias.
“Este é um estudo que evidencia o quanto ainda há para se descobrir sobre a biodiversidade do planeta. Mesmo entre animais carismáticos e conhecidos como os felinos, espécies podem permanecer desconhecidas durante séculos. Descobrir e entender estas espécies é vital para que também saibamos como protegê-las”, frisou Eizirik.
A pesquisa foi realizada por cientistas da PUCRS e de instituições parceiras do Brasil, Bolívia, Peru, Bélgica, Colômbia, Estados Unidos e Reino Unido. O artigo “Phylogenomics and museomics reveal five distinct species of tiger cats in South America” foi publicado na revista Current Biology.
Fonte: Correio Do Povo
Foto : Paola Nogales-Ascarrunz / Divulgação / CP













