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Oracle leva TikTok, insiste na Warner e flerta com Netflix

A Oracle, tradicional gigante norte-americana de tecnologia corporativa, vem se posicionando estrategicamente nos bastidores da indústria de mídia e entretenimento. Diferentemente de empresas como Netflix, Disney ou Meta, a Oracle não produz conteúdo nem opera plataformas diretas ao consumidor.

A empresa atua no limite entre tecnologia e geopolítica regulatória, alavancando alianças políticas e preocupações de segurança nacional para expandir sua influência. Os casos que ilustram essa influência estão na aquisição e infraestrutura do TikTok nos EUA, a compra da Paramount e a intenção de compra da Netflix e da Warner Bros. Discovery (WBD). O mercado global de streaming é estimado em US$ 350 bilhões, e os Estados Unidos respondem por um terço disso.

Estrategicamente, a Oracle busca ser a camada tecnológica indispensável por trás dessas plataformas. Essa abordagem oferece vantagens. Ao manter-se fora do holofote cultural, a empresa evita o escrutínio público e político direcionado ao conteúdo, enquanto cultiva uma imagem de player tecnológico neutro e confiável.

A rede social TikTok, de propriedade chinesa (ByteDance), enfrentou uma crise nos EUA a partir de 2020, quando o presidente Donald Trump, em seu primeiro governo, sinalizou preocupações de segurança nacional sobre dados de usuários.

Sob pressão de um banimento iminente, a Oracle apareceu como peça-chave na operação americana do TikTok, atuando como parceira tecnológica de confiança e garantidora de compliance regulatório. Essa intervenção foi diretamente influenciada por Trump, que em agosto de 2020 emitiu ordem executiva forçando a venda ou reestruturação do TikTok nos EUA.

Trump mantém boas relações com Larry Ellison, cofundador da Oracle e um dos homens mais ricos do mundo. Ellison foi um dos poucos líderes de tecnologia abertamente aliados a Trump. Essa conexão política pavimentou o caminho para que a Oracle fosse escolhida como salvadora do TikTok, em detrimento de concorrentes como Microsoft ou Walmart.

A Oracle detém uma participação minoritária, porém estratégica, e exerce funções de auditoria e hospedagem de dados. Em janeiro de 2026, oficializou-se o TikTok USDS Joint Venture LLC, uma joint venture em que a chinesa ByteDance permanece com 19,9% de participação, enquanto um consórcio de investidores americanos (Oracle, o fundo Silver Lake e a empresa MGX) assumiu 80% coletivamente.

Além disso, a Oracle passou a auditar o código e os algoritmos do TikTok, garantindo que cumpram exigências de segurança nacional impostas pelos Estados Unidos.

Essa colaboração público-privada permitiu que a Oracle entrasse no segmento de mídias sociais de consumo pelos bastidores. Com cerca de 341 milhões de habitantes, os Estados Unidos têm cerca de 136 milhões de usuários ativos mensais no TikTok, sendo 82,2 milhões de usuários ativos diários, segundo dados de 2025.

Se no caso TikTok a Oracle entrou no mercado de mídia por intervenção governamental, a intenção de compra da Netflix é voluntária e estratégica. A Netflix, maior plataforma de streaming do mundo, não é uma produtora tradicional de tecnologia ou de mídia, mas sim uma voraz consumidora de infraestrutura em nuvem e dados, áreas em que a Oracle é especialista.

A Oracle vem investindo pesado em sua Oracle Cloud Infrastructure e em soluções voltadas para mídia. Fechou contratos de nuvem com estúdios como a Skydance Media e tem adaptado seus serviços para cargas de trabalho de streaming.

A Oracle estava em negociações com a Skydance (a produtora fundada por David Ellison, filho de Larry Ellison) e a própria Paramount Global para um contrato de computação em nuvem de cerca de US$ 100 milhões anuais. Esse acordo prevê que plataformas do grupo Paramount (como CBS e MTV) hospedem seus arquivos de vídeo e áudio em servidores da Oracle Cloud. A Netflix escolheu a Microsoft (e não a Oracle ou Google) como parceira para implementar seu novo serviço de anúncios. Ainda assim, a Oracle sinaliza seu apetite pelo setor.

Alguns analistas chegam a levantar a hipótese de a Oracle considerar investir na Netflix ou mesmo adquiri-la em cenário oportuno. A Oracle seria a dona da infraestrutura e deixaria a operação criativa e de marketing para a equipe da Netflix, mantendo-se, de novo, como infraestrutura invisível.

A Oracle enxerga valor no catálogo de filmes, no motor de distribuição e na base de usuários, que podem ser potencializados pela tecnologia Oracle. Outro ponto de conexão: a Oracle sabe navegar os meandros regulatórios e políticos que cercam a mídia atualmente. Por exemplo, quando a Netflix manifestou interesse em adquirir a Warner Bros. Discovery (WBD) em 2025, esbarrou em resistência de alguns setores políticos preocupados com concentração de mercado.

Nessa ocasião, Larry Ellison posicionou-se do lado oposto da Netflix, financiando uma oferta concorrente (via Paramount/Skydance) e supostamente buscando aliados para bloquear o avanço da plataforma. E como forma de melhorar seu catálogo, já que a Paramount tem um catálogo antigo e a Skydance está começando.

Contra as expectativas, a Netflix conseguiu vencer o leilão, anunciando em dezembro de 2025 um acordo para comprar o WBD por cerca de US$ 82,7 bilhões em dinheiro.

Poucos dias depois, a equipe jurídica da Paramount enviou uma carta dura ao CEO da Warner, David Zaslav, acusando a empresa de ter “viciado” o leilão em favor da Netflix. David Ellison chegou a ameaçar processar o WBD, alegando falta de transparência e quebra de dever fiduciário por ignorar a oferta (supostamente superior) da Paramount.

A Paramount/Skydance planeja contestar o negócio Netflix-Warner junto aos órgãos reguladores (SEC e Departamento de Justiça), argumentando que seria anticompetitivo e prejudicial aos consumidores e exibidores de cinema. A votação dos acionistas da Warner Bros. Discovery (WBD) sobre a venda de seus ativos para a Netflix está prevista para ocorrer até abril de 2026. Outra saída é trocer para que os reguladores vetem a fusão.

Há relatos de que Ellison poderia até usar sua influência junto a Trump para impedir que a Netflix ampliasse seu domínio. Essa dinâmica sugere que a Oracle vê a Netflix simultaneamente como concorrente e parceira.

Concorrente no sentido de que a Netflix, se integrar verticalmente mais estúdios e infraestrutura, diminui o espaço para a Oracle, além da competição diagonal com a Paramount/Skydance. Como parceira em potencial já que a Netflix poderia se beneficiar de um sócio tecnológico de peso.

No caso da Paramount Global (conglomerado de mídia que inclui Paramount Pictures, o streaming Paramount+, redes de TV como CBS e MTV), David Ellison liderou a compra US$ 8 bilhões em 2024.

Embora a Paramount não tenha conseguido até o momento adquirir a Warner, a saga com a Paramount evidencia a ambição da Oracle de ser o alicerce de Hollywood e deixa claro também a irritação de Ellison quando esse plano encontra obstáculos.

Fonte: UOL

Creditos: Getty Images/SOPA Images

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